Vera Lyn Poeta

A arte é Divina, é a salvação. A arte nos poe mais perto de Deus. v.l.p

sexta-feira, junho 29, 2018

Segue o teu destino


Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-proprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 

_______Ricardo Reis, in "Odes" 

heterónimo de Fernando Pessoa 

domingo, maio 20, 2018


“Te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade.” 

______ Hilda Hilst

Toma-me

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes.
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

__ Hilda Hilst

quinta-feira, maio 17, 2018

Gargalhada

Quando me disseste que não mais me amavas, 
e que ias partir, 
dura, precisa, bela e inabalável, 
com a impassibilidade de um executor, 
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias... 
Mas olhei-te bem nos olhos, 
belos como o veludo das lagartas verdes, 
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos, 
tive pena de ti, de mim, de todos, 
e me ri 
da inutilidade das torturas predestinadas, 
guardadas para nós, desde a treva das épocas, 
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...

_____ João Guimarães Rosa